Porto Alegre, as Bicicletas e as Pessoas

O que leva as pessoas a utilizarem a bicicleta? Uma pesquisa realizada em 2015 seguindo proporções estatísticas da população de Porto Alegre buscou descobrir esses motivos. Dentre os entrevistados que utilizam a bicicleta mais de duas vezes na semana, 37,1% deles passaram a utilizar a bicicleta para locomoção por ser a opção “mais prática e rápida”. Quando perguntado a motivação a continuar pedalando os números são ainda maiores, 45,1% seguem pedalando pelo mesmo motivo. Há vários anos consecutivos a bicicleta segue chegando em primeiro lugar no Desafio Intermodal realizado em várias cidades do país, inclusive Porto Alegre. Enquanto 2 mil pessoas de carro ocupam uma área equivalente a sete estádios de futebol e a mesma quantidade em ônibus ocupam 55% de um estádio, 2 mil pessoas de bicicleta ocupam apenas 15% da área do estádio, por isso as ciclovias muitas vezes parecem “vazias” na visão de quem está de carro.

Porto Alegre é referência por ter sido a primeira capital  do país a desenvolver um plano cicloviário, sendo que a equipe responsável afirmou que se tratava de uma das cidades mais cicláveis do Brasil. Porém os 495km de ciclovias previstas no Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) pouco avançaram desde seu lançamento em 2009. Atualmente a cidade possui apenas 41km de ciclovias (pouco mais de 8% do previsto em sete anos de plano), sendo que algumas delas não seguem o projeto proposto no PDCI. Segundo a EPTC, um dos principais problemas no avanço desses números envolve contrapartidas imobiliárias, em que as construtoras são responsáveis por determinados trechos associado ao Habite-se dos imóveis, ficando as datas inconsistentes e os prazos definidos pela própria construtora. Ainda assim, quando foi conseguida a aprovação dos 20% dos recursos das multas a serem aplicados na construção de ciclovias, a própria Prefeitura lutou até conseguir a derrubada da emenda em 2014.

A luta pela bicicleta na cidade teve um marco trágico no dia 25 de fevereiro de 2011, quando o bancário Ricardo Neis acelerou criminosamente seu automóvel contra 150 ciclistas que participavam da Massa Crítica, ferindo 17 pessoas. Cinco anos depois o atropelador segue em liberdade aguardando julgamento. Cinco anos depois e a situação de quem escolhe a bicicleta como meio de transporte em Porto Alegre avançou pouco. O potencial de “uma das cidades mais cicláveis do Brasil” segue desperdiçado.

Enquanto a infraestrutura cicloviária da cidade avançou 48 metros por mês nos últimos 7 anos, diariamente se escancaram os erros de projeto e implementação, deixando dúvidas se a mesma é feita pensando nas bicicletas ou nos automóveis. Diversos estudos internacionais sobre mobilidade urbana e análise de países referência como Holanda e Dinamarca mostram que a criação de uma infraestrutura funcional e segura para bicicletas é um dos maiores impulsionadores para mais pessoas pedalarem. Ciclovias geram demanda, planejá-las para atender demanda é um mito que infelizmente muitos ainda acreditam.

Quando analisamos também a visão de quem anda a pé, fica mais uma vez claro que o foco do planejamento em Porto Alegre não é a mobilidade das pessoas. Quando se trata de atropelamentos, o pedestre é a agente penalizado. Chega-se ao cúmulo de espalhar grades ao redor das vias a fim de obrigar as pessoas a atravessarem em faixas fora do caminho natural, aglomerarem-se em canteiros e cruzar vias em tempos de sinaleira mínimos, tudo a fim de não prejudicar o carro. Projetos de redução de velocidade (como o Zona 30), semáforos de 30 segundos para pedestres, corredores exclusivos para transporte público, restrição de veículos no Centro, legislação de parklets sobre vagas de veículos e criação de lombofaixas são projetos que ficam apenas no papel ou são implementados de forma deficiente e ineficaz. Enquanto as maiores cidades do mundo como Nova Iorque e Londres restringem e taxam cada vez mais o uso do automóvel, vemos a cada dia vias mais largas, velocidades mais altas, viadutos cortando a cidade e os pedestres sendo tirados do caminho do progresso motorizado, embora a Política Nacional de Mobilidade Urbana deixe claro nas suas diretrizes a “prioridade dos modos de transporte não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado”. Está Porto Alegre na contramão do resto do mundo?

A Mobicidade acredita em Porto Alegre e no seu potencial. Acreditamos em uma cidade mais humana, em uma cidade para as pessoas. Lutamos e continuaremos lutando por esses ideais. Oferecemos ao poder público e aos candidatos os resultados de nosso trabalho esperando compartilhar essa visão e as necessidades de nossa cidade. Que possamos conseguir o título de cidade pela vida.


Essa carta foi enviada aos diretórios políticos de Porto Alegre dentro do “kit candidato”. Conheça mais do projeto Bicicleta nas Eleições clicando AQUI.

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