Respeitômetro na Mídia

Confira a repercussão do evento na mídia!

Foto: Maia Rubim/Sul21

Evento criará “respeitômetro” para conscientizar motoristas

No dia 9 de março (quinta-feira) será realizado um evento com participação da Mobicidade, ACPA, Detran/RS, Lappus e CETRAN sobre o respeito ao 1,5m de distância de ultrapassagem aos ciclistas no trânsito.
A partir das 9h da manhã o grupo irá se concentrar na esquina das avenidas Wenceslau Escobar e Otto Niemeyer, na zona sul de Porto Alegre, onde será montado um “respeitômetro”, o qual exemplificará a distância correta de ultrapassagem. A “fina”, como é popularmente conhecida, além de pôr em risco a vida do ciclista, é considerada infração de trânsito e é passível de multa pela EPTC.
Um grupo de oito ciclistas participará ativamente da atividade, mas quem desejar estar presente para acompanhar o evento será muito bem-vindo. A aproximação com os órgãos oficiais de trânsito são o resultado de muito trabalho dos ciclistas da cidade e nos dão esperança de podermos pedalar com cada vez mais segurança e respeito dentro da cidade.
Acompanhe o evento criado pelo Detran/RS no Facebook: https://www.facebook.com/events/188992604921123/

Carta Aberta a Prefeitura e EPTC

Caros prefeito Nelson Marchezan Júnior e diretor-presidente da Empresa Pública de Transporte e Circulação, Marcelo Soletti,

Viemos a público, por meio desta carta aberta, apelar para que a gestão municipal mantenha ativo o cumprimento do Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) de Porto Alegre, agilizando sua execução e ampliando a quilometragem já existente, bem como outras políticas alinhadas, de humanização e acalmamento do trânsito de nossa Capital.
O PDCI de Porto Alegre foi estabelecido por lei no ano de 2009 e prevê 495km de vias cicláveis, além de sinalização e medidas de educação no trânsito relativas à consolidação da bicicleta como meio de transporte e a integração dos usuários desse modal com os outros atores do trânsito. A execução total do plano cicloviário está ainda longe de ser alcançada, mas entendemos que os cerca de 40km que foram feitos até agora, com visível e gradual melhoria das estruturas, foi resultado do trabalho realizado pela EPTC e seus profissionais, que também gradualmente se abriram ao diálogo com a comunidade ciclística, ouvindo demandas e necessidades dos cidadãos portoalegrenses no tocante ao transporte por bicicleta na capital gaúcha, o que entendemos que foi determinante na melhoria das estruturas ao longo desses anos. E tudo, sem dúvida, pode melhorar.
Esses fatores, somados à situação cada vez mais saturada do modelo antigo de mobilidade em grandes e pequenas cidades – baseado no automóvel – têm contribuído para um aumento visível e documentado dos deslocamentos por bicicleta em Porto Alegre. Pesquisa da ONG Transporte Ativo, realizada em 10 capitais, no caso de Porto Alegre aponta que 52% dos mais de 200 entrevistados começou a utilizar a bicicleta como meio de transporte nos últimos cinco anos. Muitas já utilizam regularmente as ciclovias e ciclofaixas da Capital, e o fazem inclusive utilizando as bicicletas compartilhadas do Bike POA – projeto patrocinado pelo Banco Itaú e que teve seu contrato renovado por mais cinco anos a partir de 2016. Porto Alegre tem a maior taxa de utilização do programa em comparação com outras cidades e a população almeja por sua ampliação. Ou seja, muitos de nós porto-alegrenses já nos encorajamos a deixar o carro em casa e utilizar a bicicleta, o transporte público e o deslocamento a pé. Isso acontece principalmente quando sentimos que estes modais são eficazes e seguros, e têm o respeito da parcela da população que não pode prescindir do uso do automóvel. O equilíbrio entre estes modais, inclusive, torna o próprio deslocamento motorizado mais eficiente, trazendo a velocidade a um nível seguro para todos e consequentemente diminuindo acidentes e a morbidade destes.
Esse uso pode aumentar ainda mais, à medida em que ciclovias e ciclofaixas tenham continuidade e formem malhas cicloviárias completas. Entendemos que o projeto apresentado pela EPTC à comunidade no mês de dezembro de 2016, que concerne especificamente às ciclorrotas e rotas de bicicleta, é destinado a impulsionar a formação dessa malha concomitantemente à execução do plano cicloviário. A continuidade deste e de outros projetos, além do PDCI como um todo, tornam fundamental que as áreas destinadas e relacionadas ao modal bicicleta sejam mantidas e, se possível, até prioritariamente ampliadas, de modo a também manter a execução do PDCI em dia com as necessidades da população, e em acordo com a Política Nacional de Mobilidade Urbana.
A ampliação do PDCI, acreditamos, alinha-se com suas propostas de campanha e o plano de governo que obtiveram a maioria do voto popular, e em que foi dito que “a utilização de bicicletas para deslocamentos é uma tendência mundial, que melhora a qualidade do ar, diminui acidentes, e promove a saúde dos usuários. Ampliaremos a extensão e melhoraremos a qualidade do Plano Cicloviário, tornando os trajetos ciclísticos integrados e seguros, e promovendo a conscientização da população sobre a importância do respeito ao ciclista”.

Desse modo, como usuários de bicicleta e de outros meios de transporte que também somos, nos colocamos, como desde sempre, à disposição para participar do processo de ampliação do PDCI, contando com a indispensável expertise técnica prefeitura para transformar a necessidade da população em ações e obras efetivas.
Sabemos que tal disposição é necessária para que tenhamos em nossa Capital uma circulação mais eficiente, com a integração de todos os modais de transporte, um ar mais respirável e um ambiente urbano livre de violência no trânsito, o que não é uma utopia e, sim, já é uma realidade crescente em centenas de cidades do mundo.

Atenciosamente,

Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (Mobicidade).

Entrega da carta ao diretor da EPTC no dia 31/01/2017.

Reunião Aberta com a EPTC

A reunião ocorrida no dia 06 de dezembro teve forte participação de ciclistas e interessados, assim como o DETRAN e pessoal de outras equipes da própria EPTC. Basicamente a apresentação se focou em dois projetos da EPTC que são paralelos ao Plano Cicloviário (PDCI).
O primeiro seria o projeto das Ciclorrotas, que envolveria sinalização vertical e na pista em vias com velocidade inferior a 40km/h e que não estejam dentro do planejamento do PDCI, não sendo ideia repavimentar as mesmas. Existem alguns núcleos já definidos, sendo que no Menino Deus já há um projeto piloto nas ruas Saldanha Marinho e Gonçalves Dias.
O segundo projeto é o chamado “Rota de Ciclista”, onde se utilizaria sinalização vertical alertando sobre a ultrapassagem a 1.5m e a preferência de ciclistas e pedestres nas conversões em vias que fazem parte do planejamento do PDCI porém ainda não receberam a infraestrutura planejada, ou ainda em algumas que não façam parte do PDCI porém sejam muito utilizadas por ciclistas e tenham velocidade máxima de 60km/h, como as avenidas Farrapos, Cristóvão Colombo e arredores.
Com um ousado plano de implementar os dois projetos ainda em 2017, a EPTC se baseou nos mapas de acidentalidade dos últimos anos e, embora com ressalvas, utilizou também o mapa de calor do Strava, o que foi criticado por boa parte dos presentes. Algumas das vias citadas foram indicações feitas pelo email ciclorrotas@eptc.prefpoa.com.br, criado especificamente para que ciclistas possam fazer sugestões nos projetos.
Diversos questionamentos foram feitos, como o uso do projeto como subterfúgio dos núcleos políticos (e não necessariamente dos técnicos da EPTC) para protelar a execução do próprio PDCI, foco dos recursos na sinalização das Rotas de Ciclista pois as Ciclorrotas poderiam ser uma tentativa de desviar os ciclistas para ruas pouco utilizadas e até perigosas (questão rebatida pela EPTC alegando que um dos critérios é as vias já serem utilizadas por ciclistas), temor de que as Ciclorrotas sigam o exemplo das ciclovias e não componham redes efetivas (“indo do nada a lugar nenhum”), sendo sugerida a criação de rotas realmente (como sinalização do tipo “Você está na rota ZN x Centro”, por exemplo), como seria feita a divulgação e fiscalização da sinalização e como agir em relação à infrações, entre outros pontos.
Uma situação que fica um tanto em aberto é a dúvida em relação aos projetos do novo governo municipal e quem assumirá a EPTC, podendo haver forte influência nos projetos apresentados, nos já existentes e na própria execução do PDCI, embora tenha ficado mais uma vez clara a necessidade de aproximação com os corpos técnicos a fim de estabelecer um melhor diálogo e fiscalização do trabalho do órgão.

Ata Reunião Ordinária 29/11/2016

Membros presentes: 08

1. Encerramento de Ano: Foi sugerida a realização em um final de semana de um picnic no Velódromo às 16h, cada membro que for levaria uma comida ou bebida para compartilhar. A ideia seria fazer uma retrospectiva das atividades da Mobicidade no ano de 2016 e confraternizarmos. Será criado um doodle e marcar a data.

2. Encerramento Bicicleta nas Eleições: O projeto está em seus últimos dias. Insistir novamente em tentar marcar uma agenda com o novo prefeito para entrega de uma carta e um livro.

3. Julgamento Ricardo Neis: Afirmar novamente que o caso Neis ainda não acabou (tanto acusação quanto defesa entraram com recurso). Sugerido criar artigo explicativo sobre questões levantadas no julgamento, como uso de equipamentos de segurança e função dos rolhas na Massa Crítica. Sugerida a ideia de criar um GT “casos de trânsito” para ficar acompanhando e postando sobre o andar de casos de atropelamentos a fim de divulgar em que ponto andam as coisas. Sugestão também de criar no site um formulário onde as pessoas possam denunciar incidentes, e oferecer um guia para quem quiser saber o que fazer em caso de incidentes ou desrespeito deliberado no trânsito (como se deve fazer BO, onde fazer, a quem denunciar, etc.).

4. Reunião com a EPTC: Publicar no site e FB sobre a reunião na EPTC no dia 06/12 às 9h no auditório do órgão. Logo após a reunião publicar avaliação da opinião da Mobicidade sobre o que foi apresentado, em formato de carta aberta, para que se evite o uso da participação da associação como uma confirmação de apoio às propostas. Tentar descobrir quem deve assumir o órgão para a próxima gestão.

5. Pedalada dos Arquitetos: Publicar no site e FB convite a participação na pedalada dos arquitetos e urbanistas, em memória do Joel Fagundes.

6. Avaliação do evento Vidas em Trânsito: Infelizmente o tempo acabou sendo curto para todos poderem falar no dia. Espera-se realizar outros eventos similares futuramente.

7. Fórum Mundial da Bicicleta: Divulgar a realização do próximo Fórum e realizar algo local para coincidir. Sugerido retomar a ideia de trazer o Daniel Guth para o curso de formação em ciclomobilidade e unir com uma programação semelhante ao que foi feito no Vidas em Trânsito. Convidar SC e PR para realizar um evento a nível sul do Brasil, se não algo local ou estadual. Sugeridos feriadões de 21/04 ou 01/05. Será montado um GT para organizar o evento.

8. Horta Comunitária do Bairro Centro: Sugerido que publicássemos apoio à iniciativa dos moradores do Centro que estão solicitando a doação de um terreno da prefeitura para construção de uma horta comunitária na José do Patrocínio.

10. Reunião GT Ciclistas: Reforçado convite a quem quiser participar no dia 02/12 na reunião do GT Ciclistas do DETRAN, a partir das 9h na sede deles na Júlio de Castilhos.

1ª edição da Volta Ciclística dos Arq e Urb – Joel Fagundes

A Mobicidade é uma das apoiadoras do evento organizado pelo SAERGS e IAB RS. A Volta Ciclística nasceu em 2015 em memória de Joel Fagundes. O arquiteto e urbanista de 60 anos, conhecido pela sua genialidade criativa referenciada nos trabalhos que realizou na Bienal do Mercosul, tinha a bicicleta como principal meio de transporte dentro e fora da cidade.

Na manhã de domingo de 08/02/2015, perto das 9h, Joel pedalava na avenida Severo Dullius, próximo ao aeroporto, quando foi atropelado por um táxi.

O evento será realizado no dia 9 de dezembro (sexta-feira), às 19 horas, com concentração e saída do Largo Zumbi dos Palmares e conta com apoio de outros grupos relacionados a bicicleta como PedAlegre e Bike Anjo, além da Mobicidade.

Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1646142909017285/

Reunião Aberta de Ciclorrotas e Rotas do PDCI com a EPTC

A EPTC convida os ciclistas e interessados a participarem de uma reunião aberta com representantes de diversas áreas da EPTC (Planejamento, Educação e Fiscalização), na qual será apresentado o estudo e o programa para implantação de ciclorrotas em Porto Alegre.

Ciclorrotas são vias compartilhadas (veículos automotores e bicicletas utilizam os mesmos espaços) com sinalização especial. Dentro do projeto da EPTC essa sinalização poderá ser feita em vias de fluxo e velocidade moderadas (onde a máxima seja 40km/h) e não estejam contempladas no Plano Cicloviário (PDCI) para receberem ciclovias e ciclofaixas.

Ciclistas que desejarem fazer sugestões de locais para implantação podem fazê-lo através do email ciclorrotas@eptc.prefpoa.com.br, sendo que os planos da EPTC são implantar boa parte do projeto ainda em 2017.

Na reunião também será divulgada a sinalização desenvolvida pela EPTC para em caráter educativo e provisório marcar as ruas que estão no Plano Cicloviário porém ainda não receberam as ciclovias.

A reunião será realizada no dia 6 de dezembro (terça-feira), a partir das 9h no Auditório da EPTC (Rua João Neves da Fontoura, 7 – Bairro Azenha).

A Mobicidade estará presente e divulgará o que for apresentado, porém é de vital importância a máxima participação dos ciclistas nesse dia. Vamos acompanhar e fiscalizar o trabalho que tem sido feito pela EPTC.

Mais informações: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/eptc/default.php?p_secao=227

Ricardo Neis é condenado em julgamento

A Mobicidade acompanhou todo o julgamento de Ricardo Neis, que durou mais de 20 horas entre os dias 23 e 24 de novembro de 2016. Após mais de cinco anos de espera a expectativa em relação ao resultado era grande. Fizemos uma cobertura minuto a minuto do júri pelo Twitter da Mobicidade (CLIQUE AQUI e acompanhe como foi).

O Caso e a Acusação

No dia 25 de fevereiro de 2011, um grupo de cerca de 150 ciclistas participava da Massa Crítica em Porto Alegre. Por volta das 19h o grupo saiu do Largo Zumbi dos Palmares, no bairro Cidade Baixa, e entrou na rua José do Patrocínio. Pouco mais de 500 metros depois, na esquina com a rua Luiz Afonso, o bancário Ricardo Neis, acompanhado do filho de 15 anos, acelerou o automóvel Golf contra o grupo de ciclistas, atingindo diretamente 17 deles e realizando um verdadeiro “boliche humano”. As imagens percorreram o mundo.

As alegações de Neis sempre foram legítima defesa, acusando os ciclistas de terem depredado o carro e tentado linchá-lo. Através de diversos recursos, a defesa vinha conseguido postergar o julgamento, e conseguiu a desqualificação no caso de algumas vítimas de “tentativa de homicío” para “lesão corporal”, pelo fato dos mesmos não terem sido atingidos diretamente pelo carro de Neis, e sim por outras bicicletas, decisão abertamente criticada pelo Ministério Público.

Em um tribunal de júri popular, Neis era acusado de 11 tentativas de homício triplamente qualificadas e 3 lesões corporais. A acusação, feita pelos promotores do Ministério Público Lúcia Helena Callegari e Eugênio Amorim, pedia 25 anos de reclusão em regime fechado, pena máxima para as acusações.

O Julgamento – Parte I: Depoimento das Vítimas

Na quarta-feira, primeiro dia, foram ouvidas individualmente 10 das vítimas de Neis. Eduardo, Tiago, Marcos, Diego, Moisés, Valesca, Sheila, Dailor, Adilson e Maria Cristina contaram aos jurados sua versão sobre aquele fatídico 25 de fevereiro e responderam perguntas da acusação e da defesa, que seguiram uma linha sobre se haviam visto o início da discussão com Neis, se ele poderia ter utilizado alguma rota alternativa para sair da José do Patrocínio, detalhes sobre o funcionamento da Massa Crítica (em especial a função dos rolhas), as lesões que sofreram e sobre seu conhecimento sobre a legislação para bicicletas. O vídeo do atropelamento foi mostrado a cada uma delas, solicitando que tentassem se identificar nas imagens. O abalo psicológico das vítimas era claro, várias choraram ao ver as imagens. Alguns disseram desde então nunca mais terem tido coragem de subir em uma bicicleta.

Nenhuma das vítimas disse ter visto o carro de Neis ser depredado, que o mesmo estava visivelmente irritado e os ciclistas pediam calma, tendo avisado o motorista de que haviam crianças e idosos no grupo.

O Julgamento – Parte II: Testemunhas da Defesa

Ainda na quarta-feira falaram também individualmente as três testemunhas da defesa, sendo que nenhuma delas havia presenciado o atropelamento. Por uma confusão da defesa, foi erroneamente chamado um dos profissionais do IGP que havia feito a perícia do carro de Neis, o qual foi posteriormente dispensado pelo juiz de depôr.

O primeiro a falar foi o delegado responsável pelo inquérito policial na época. Já aposentado, o delegado apresentou uma narrativa confusa, inicialmente culpando os ciclistas pela falta de aviso às autoridades sobre a realização da Massa Crítica, dizendo que existiriam regras no nosso país e declarando “aqui não é a Líbia”. Questionado pela defesa e acusação, não sabia embasar os motivos de ter classificado o caso como tentativa de homicídio e ter pedido a prisão preventiva do réu, e declarou veemente à promotora nunca ter interrogado Neis, mesmo que esse registro estivesse no inquérito. O delegado se declarou constrangido por ter que depôr.

Após a confusão com o perito, a defesa chamou um advogado especialista em trânsito e mobilidade urbana. Durante os questionamentos o advogado analisou as cinco infrações que constavam na ficha de Neis, sugerindo possíveis justificativas para cada uma delas e dizendo que já havia visto casos muito piores durante seu trabalho analisando infrações na JARI do DETRAN. Após assistir ao vídeo, referiu-se ao caso como “lamentável, triste, conduta equivocada do réu”, culpou os ciclistas pelo bloqueio da via e a falta de capacete e equipamentos obrigatórios, dizendo também já ter vistos atropelamentos muito piores. Foi bastante pressionado pelo promotor Amorin, ficando bastante tenso e se perdendo em algumas respostas, sendo abertamente acusado de ter feito um “depoimento comprado”.

O Julgamento – Parte III: Depoimento do Réu

A quinta-feira iniciou com Neis contando sua versão do atropelamento. Como já havia declarado em outras entrevistas, disse que agiu em legítima defesa, pois os ciclistas estavam depredando o carro e ele havia temido pela vida sua e do filho de 15 anos que o acompanhava no banco do carona.  Neis disse que estava bastante calmo no dia, que havia conversado com os ciclistas e nem mesmo buzinara. Acusou um grupo de ciclistas de cercar o carro, batendo nele o tempo inteiro e o impedindo de desviar nas demais ruas. Nas suas próprias palavras, “arrancar foi o caminho menos traumático para sair, evitando bater diretamente nas pessoas, agi instintivamente, não queria derrubar ninguém”. Ainda declarou que não parou de acelerar pois as pessoas que estavam sobre o capô poderiam cair sob as rodas, e que não imaginava que houvessem tantas pessoas a frente.

Nos primeiros questionamentos da promotora Lúcia Helena, acusou os ciclistas pela obstrussão da via, respondeu sobre as infrações que constavam em sua ficha e acusou os dados da promotora de serem “um arrolar de mentiras para forjar um perfil do réu”. Pressionado pela promotora, Neis fica claramente incomodado, passa a erguer a voz e se recusa a responder as demais perguntas da promotora. O promotor Amorin então passou a fazer uma série de perguntas ao réu, sobre sua vida, sobre o desenrolar do dia do atropelamento, as quais respondeu calmamente. A promotora Lúcia Helena então voltou a perguntar, questionando sobre declarações na imprensa e laudos psiquiátricos que indicavam uma personalidade irritadiça e agressiva, não respondendo a maioria delas e chamando o laudo psiquiátrico forense de falso. A última pergunta da promotora foi emblemática: “o senhor se arrepende?”, respondida apenas com o silência do réu.

Vieram então as perguntas da defesa, que perguntou sobre a trajetória profissional do réu e mais detalhes sobre o dia, corroborando a tese de legítima defesa.

O Julgamento – Parte IV: Debate das Partes

Após o depoimento do réu, a acusação teria 1h30min para falar aos jurados, seguida pela defesa, que teria o mesmo tempo. Então haveriam mais 1h de réplica para a acusação e 1h de tréplica, finalizando assim os debates e iniciando os momentos de decisão sobre o caso.

A explanação da acusação foi feita pela promotora Lúcia Helena, que chamou o réu de egoísta e individualista. Leu trechos dos depoimentos de testemunhas que pedalavam com o grupo ou apenas assistiam sua passagem. Falou sobre as qualificadoras da acusação: motivo fútil, perigo comum para a coletividade (embora ele tenha “acertado” apenas 17 pessoas, poderiam ter sido muito mais) e recurso que dificultou a defesa das vítimas (os ciclistas foram acertados de surpresa por trás). Citou o depoimento de uma testemunha que estava no carro ao lado do Golf de Neis, que vinha pela faixa central (Neis ocupava a faixa da esquerda) e desviou do grupo entrando à esquerda na rua da República, colocando em dúvida o relato do réu de que não era possível ter entrado naquela via. Encerrou pedindo a condenação do réu a 25 anos de reclusão e dizendo “tu não és o sol, tu és igual a todo mundo”.

Foi então a vez da defesa falar. O advogado Manoel Castanheira falou sobre o sofrimento de Neis por suportar “um processo criminal e difamante”, e leu trechos dos depoimentos das vítimas para corroborar a tese de legítima defesa, tendo como fator extra o medo e o pavor sentidos pelo réu no momento, o qual não teria outra saída senão fugir. Leu os laudos dos exames de corpo de delito das vítimas, declarando que para todos eles constava que não houve perigo de vida, e questionando o não uso de equipamentos de proteção. Passou a analisar e questionar as acusações e qualificadoras, sugerindo que caso o júri não achasse o réu inocente, poderia desqualificar a acusação de tentativa de homício e considerar algo mais próximo de acidente de trânsito. Finalizou dizendo que Neis “jamais utilizou o carro como arma, mas para proteger a si e ao filho”.

A réplica da acusação foi feita pelo promotor Amorin. Iniciou dizendo que a defesa havia solicitado formalmente a não-exibição do vídeo em julgamento pois o mesmo seria “editado”, e questionou o réu de se realmente havia sido legítima defesa, qual o motivo do mesmo após o atropelamento  ter abandonado o carro sem placas e ido beber em vez de ter ido à delegacia explicar sua versão. O promotor ainda mostra aos jurados fotos da perícia do carro, questionando a depredação que havia sido feita pelos ciclistas, e exibe uma parte do desenho animado da Disney “Senhor Trânsito”, no qual o personagem Pateta mudava de um sujeito calmo e pacato para alguém agressivo e egoísta quando passava a dirigir seu carro. Mostrou trechos congelados do vídeo onde não aparecia ninguém ao redor do carro, e respondeu à defesa que o “perigo de vida” dos laudos do IML era do ponto de vista médico e não legal, pois o ato de Neis só não causara óbitos por motivos alheios, e que o mesmo tinha noção do que estava fazendo. Fez um exercício com os jurados, pedindo que imaginassem uma pessoa amada em uma das bicicletas e encerrou sua fala com a cena do carro acelerando congelada e questionando se os jurados deixariam Neis acelerar ou o mandariam parar.

Foi então a vez da defesa fazer a tréplica, iniciada pelo advogado Castanheira com um exercício semelhante ao feito pelo promotor, porém pedindo aos jurados que se colocassem no lugar do motorista, e fala sobre o uso da violência a fim de proteger alguém. Após citar um caso no qual ciclistas teriam depredado um táxi e o taxista fugido a pé, é interrompido pelo promotor que exibe fotos do táxi com poucos danos e pede que o advogado cite a matéria inteira pois um ciclista havia sido gravemente atropelado. O promotor passa a insistentemente fazer comentários durante a fala da defesa, incomodando o advogado. Finalizou questionando o tempo de prisão de 25 anos, a situação dos presídios onde o réu cumpriria junto a facções, onde “não seria um lugar para crimes de trânsito”, e pedindo aos jurados que não tomassem uma decisão por pressão popular ou as figuras utilizadas pela acusação, e sim pela seriedade e o instinto de proteção aos filhos.

O Julgamento – Parte V: A Decisão

Os jurados levaram cerva de 40 minutos para tomarem uma decisão, a qual foi lida pelo juiz Maurício Ramires. Neis foi declarado culpado por todas as acusações, porém por questões como o fator de ser réu primário, a pena foi definida em 12 anos e 9 meses de cadeia inicialmente em regime fechado sem prisão preventiva, ou seja, Neis poderá recorrer em liberdade. Também não foi pedida a exoneração do cargo público pelo entendimento que seu trabalho no Banco Central não teria relação com o caso.

E agora?

Logo após o julgamento, a defesa já declarou na imprensa que entrará com recurso para diminução da pena e cogita inclusive pedir a anulação do julgamento por conta de provas como a falta de equipamentos obrigatórios (lembrando que segundo o CTB o capacete não é um item obrigatório). Os promotores também já declaram que consideraram a pena branda e entrariam com recurso para aumento da mesma, portanto o caso deve se desenrolar ainda por algum tempo antes de Neis iniciar o cumprimento de qualquer pena.

#NãoFoiAcidente

Créditos da imagem: Vá de Bike.org

Julgamento Ricardo Neis

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E finalmente, após mais de cinco anos de espera, Ricardo Neis vai a júri popular. O julgamento ocorrerá nessa quarta-feira (23/11) a partir das 9h na 1ª Vara da Capital, no Foro Central de Porto Alegre (rua Márcio Vidor). Embora aberto ao público, são poucos lugares e haverá distribuição de fichas a partir das 8h30, lembrando que por se tratar de um tribunal não serão toleradas manifestações no interior do mesmo.

Relembre o Caso

Na noite do dia 25 de fevereiro de 2011, por volta das 19h, quando o grupo da Massa Crítica seguia pela rua José do Patrocínio, Neis após tentar forçar a passagem pelo grupo de 150 ciclistas, acelerou seu automóvel contra o grupo, atingindo diretamente 17 deles e provocando um verdadeiro boliche humano. O atropelamento foi todo gravado, e o vídeo correu o mundo inteiro, sendo noticiado em portais internacionais como o Telegraph, New York Times, BBC, The Huffington Post e The Guardian (clique sobre os nomes para ver as notícias).

Após muitas manobras da defesa, Neis ficou pouco mais de um mês na cadeia, conseguindo liberdade provisória. Além dos constantes adiamentos do julgamento, conseguiram a diminuição da pena para 11 tentativas de homicídio e cinco lesões corporais.

Arrependimento?

Em entrevista ao SBT RS nos últimos dias, Neis se declarou inocente e culpa os próprios ciclistas pelo atropelamento. Segundo o próprio o ato foi em legítima defesa, pois caso não tivesse acelerado o carro, os ciclistas teriam matado ele e o filho.

Ricardo no momento do atropelamento levava o filho para a casa da mãe no seu automóvel Golf. Ricardo tinha pressa. Ricardo achava errado os ciclistas estarem na pista. Felizmente não houveram vítimas fatais. Infelizmente Neis é apenas um reflexo da violência do nosso trânsito. Que a justiça seja feita.

#NãoFoiAcidente

Evento Vidas em Trânsito

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No último domingo então aconteceu o evento “Vidas em Trânsito”, uma parceria entre a Mobicidade e o StudioClio. O evento começou com a exibição do vídeo “Lavando a Alma“, sobre o atropelamento, e em seguida tivemos painéis com o Eduardo Iglesias, um dos ciclistas que foi diretamente atingido por Ricardo Neis, Alessandra Both, que é engenheira na EPTC e responsável pelos projetos de mobilidade e Ildo Szinvelski, diretor geral do DETRAN/RS.

Após os painéis, foram abertas perguntas ao público para serem debatidas pelos painelistas, e infelizmente por conta do tempo o debate acabou sendo bastante reduzido. Embora com algumas falhas, tivemos também a transmissão ao vivo do evento e uma cobertura no Jornal Zero Hora (veja a matéria AQUI). Obrigado a todos que compareceram, acompanhem algumas das imagens capturadas pela Caroline Rolim:

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