Nota de Repúdio à culpabilização dos pedestres pela Secretaria Municipal de Saúde, EPTC e Jornal Metro

A Mobicidade vem por meio desta carta, manifestar seu repúdio à posição da EPTC e da Secretaria Municipal de Saúde, por meio do projeto “Vida no Trânsito” e que foi veiculada de forma irresponsável no Jornal Metro na edição da última quarta-feira, 25 de fevereiro, entitulada “Sinal vermelho à distração”.

Ao afirmar a “Distração dos pedestres é a principal causa por trás dos atropelamentos na capital” (capa) e “Não são os carros, nem os ônibus nem as motos. É a distração a principal ameaça aos pedestres no trânsito” EPTC, SMS e o Jornal Metro estão eximindo os motoristas de responsabilidade. Na realidade é o motorista o maior responsável pela segurança de quem está fora do veículo, já que é ele que está trazendo o elemento de risco para as ruas, pois não existiria risco de vida para os pedestres sem a presença de um veículo de uma tonelada se deslocando em velocidade incompatível com a segurança.

Matéria no jornal Metro responsabiliza os pedestres pelo seu infortúnio (clique na imagem para ler).
Matéria no jornal Metro responsabiliza os pedestres pelo seu infortúnio (clique na imagem para ler).

 

O foco jamais deve ser a vítima (“Não seja atropelado!”), mas o agente da ação, o atropelador (“Não atropele!”). Isso é ainda mais verdade quando a realidade que presenciamos é a de total desrespeito pelas leis de trânsito e pela segurança alheia por parte dos condutores de veículos. Motoristas ao celular, furando sinal vermelho, acima dos limites de velocidade (que é 40km/h na maioria das vias da capital), desrespeito total à faixa de segurança e à preferência do pedestre no trânsito são as verdadeiras causas por trás dos atropelamentos. Por mais distraída que esteja uma pessoa a pé, ela dificilmente será atropelada se não houver uma pessoa distraída ou imprudente atrás do volante.

O alerta aos pedestres até seria válido em uma realidade onde comportamento dos motoristas portoalegrenses e brasileiros fosse exemplar, as infrações de trânsito fossem a exceção, e não a regra, e onde os pedestres invadissem as ruas de maneira inesperada e veloz. Mas não é o caso. O fato é que os pedestres hesitam ao atravessar a rua até mesmo onde há faixa de segurança, na prática cedendo a preferência ─que têm por lei ─ aos motoristas que os desrespeitam.

Na conjuntura atual, esse tipo de abordagem reforça o comportamento do agressor, no caso o motorista, que desrespeita sistematicamente o pedestre sem ao menos dar-se conta. A maioria dos motoristas não desrespeita os pedestres conscientemente, mas pelo fato da violenta cultura da supremacia do automóvel nas ruas estar tão incutida em suas mentes que sequer lhes passa pela cabeça que aquilo é um desrespeito ─pelo contrário, muitos motoristas sentem-se sinceramente ofendidos quando são forçados por pessoas a pé a parar na faixa de segurança. O mais triste é que essa idéia de que o mais forte é quem manda no trânsito permeia tanto a cultura brasileira que mesmo quando um motorista resolve respeitar a faixa de segurança, muitos pedestres ficam constrangidos e alguns pedestres até mesmo recusam-se a atravessar, com receio.

Quando órgãos públicos resolvem adotar medidas para conscientizar as vítimas dos perigos do trânsito, estão pedindo para o mais fraco para que proteja-se do mais forte, ao invés de pedir para o mais forte respeitar o mais fraco. É o mesmo que aconselhar mulheres a não usarem mini-saias e ficarem em casa à noite para não serem estupradas. É o mesmo que aconselhar civis a usar colete à prova de balas ao invés de buscar o fim da guerra. Mas a reportagem do Jornal Metro foi além disso, não se contentou em pedir para a vítima se proteger do agressor, mas culpou as vítimas pela sua própria desgraça.

A EPTC já possui um histórico em culpar a vítima. Em 2013, o diretor-presidente da empresa, Vanderlei Cappellari, afirmou em entrevista à Rádio Gaúcha: “A maioria [dos atropelamentos] é responsabilidade do pedestre. Não são jovens, pessoas de meia idade. São pessoas acima de 60 anos, que teoricamente deveriam ter responsabilidade maior, educação diferenciada no sentido de procurar locais adequados pra fazer a travessia.” Novamente, dia 26/02, quando da ocorrência de dois atropelamentos nas proximidades do estádio Beira-Rio, a posição da EPTC é de que os mais de 30 mil torcedores presentes deveriam ser embretados nas faixas de segurança, mantendo a preferência no trânsito aos veículos motorizados em relação ao número muito mais expressivo de pedestres. Esta atitude foi vista também no Dia do Ciclista, quando, ao invés de ampliar a conscientização dos motoristas para o compartilhamento das vias com os ciclistas, distribuíram cartilhas para os ciclistas, atribuindo a eles a culpa pelos atropelamentos sofridos.

Tais abordagens, além de completamente contrárias às tomadas por cidades no mundo que foram bem sucedidas na redução do número de mortes no trânsito, também são contrárias à própria legislação federal, que consagra a preferência no trânsito dos mais fracos em relação aos mais fortes. Desta forma, Porto Alegre reproduz uma cultura de individualismo no trânsito, responsável pelo número crescente de atropelamentos e, em última análise, pela perda de qualidade de vida dos habitantes da cidade.

MOBICIDADE – Associação Pela Mobilidade Urbana em Bicicleta

notarepudio27022015

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