Com ou sem os 30 segundos, priorizar o pedestre é urgente

Jornal Metro, 29 de abril de 2014
Metro, 29/4/2014

 

Embora possa-se discordar se o teste do tempo mínimo de 30 segundos para a travessia de pedestres nos semáforos — que levou o prefeito José Fortunati a anunciar que iria vetar a emenda — foi feito da maneira mais apropriada, não resta dúvida que as pessoas que caminham por Porto Alegre acham que o tempo para travessia em grande parte dos semáforos é insuficiente, tendo havido diversos testemunhos na mídia e nas redes sociais de pedestres que não conseguem atravessar a rua no tempo estipulado atualmente e até mesmo de motoristas de táxi e de ônibus que acham que o tempo para pedestres é pouco. Isso mostra que os parâmetros técnicos utilizados pela EPTC não são apropriados à nossa realidade e ao conceito de cidade para as pessoas.

É preciso uma reavaliação desses parâmetros de modo a colocar a segurança do pedestre acima do mero fluxo de veículos. Isso pode ser feito através de leis, ou pode ser feito apenas com a decisão do prefeito e do Secretário Municipal de Transportes de humanizar o trânsito e adotar outra série de medidas. Enquanto associação e representante da sociedade civil, a Mobicidade tem interesse em participar desse urgente debate – o tempo que perdemos é medido em vidas.

Entretanto, é ilusão pensar que é possível qualificar o trânsito de pedestres sem qualquer tipo de impacto no trânsito de automóveis, pois o fluxo rápido de um grande número de carros particulares é incompatível com a segurança e priorização do pedestre. A cidade precisa fazer escolhas.

Acreditamos que a implementação de uma política favorável ao pedestre tem que ser acompanhada de políticas de incentivo ao transporte coletivo e ao uso da bicicleta. Se houvesse faixas exclusivas para ônibus em avenidas como Loureiro da Silva, Borges de Medeiros, Salgado Filho, Ipiranga, Azenha e Mauá, o impacto negativo do tempo extendido para pedestres no deslocamento do transporte coletivo seria muito reduzido.

Jornal Metro, 30 de abril de 2014.
Metro, 30/4/2014.

Mas isso faria com que os impactos fossem ainda maiores no trânsito de automóveis particulares — essa é a escolha que precisa ser feita. Vamos ficar nos preocupando em garantir a fluidez de um imenso número de carros, que raras vezes transportam mais de uma pessoa, ou vamos nos focar em construir uma cidade agradável para as pessoas, com foco no trânsito de pedestres, ciclistas e transporte coletivo? Esse último é o modelo mais moderno de cidade, que está sendo adotado nas grandes cidades de todo o mundo, e é o modelo que já prevê o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Porto Alegre, que diz:

“A Estratégia de Mobilidade Urbana tem como objetivo geral qualificar a circulação e o transporte urbano, proporcionando os deslocamentos na cidade e atendendo às distintas necessidades da população, através de:

  1. prioridade ao transporte coletivo, aos pedestres e às bicicletas;”
Jornal Metro, 30 de abril de 2014
Jornal Metro, 30/4/2014

A grande questão, que ainda falta ser compreendida por parte da população e veículos de comunicação, é que o trânsito de automóveis particulares se auto-regulamenta: se fica muito complicado ir de carro a determinada área da cidade, torna-se mais atrativo usar o ônibus, a bicicleta ou caminhar, e dessa maneira muitos migram de modal e passam a deixar o carro na garagem, até o ponto em que o fluxo de automóveis vai ter uma velocidade aceitável novamente.

Se queremos um trânsito mais eficiente, seguro e humano, precisamos quebrar paradigmas e ter coragem de enfrentar algumas complicações no curto prazo, que trarão enormes benefícios no longo prazo.

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